23 de junho de 2008

tretirado do blog de Carla Lampert

A mulher e a sombra do feminino na vivência do amor

por Carla Lampert

Longe de ser somente um processo histórico e social, a supressão do feminino criou uma espécie de sombra no inconsciente coletivo feminino, ou seja, a Deusa ferida no âmago da estrutura feminina manifesta-se através do fenômeno do feminino sombrio. No contexto individual, a perpetuação desta parte desconhecida, machucada ou reprimida, dá-se através da transgeracionalidade, ou seja, de padrões psicológicos negativos e até destrutivos, que irão atrair situações e pessoas energeticamente compatíveis, criando e recriando problemas não assumidos, que são transferidos inconscientemente nas famílias de uma geração de mulheres para a geração seguinte.

A escritora Clarice Lispector certa vez disse que “a mulher não tá sabendo, mas ela tá cumprindo uma coragem. A coragem da mulher é a de não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem”. A mulher paga um altíssimo “preço emocional” por causa desse prosseguir, sem buscar a raiz de seus medos, sem curar seus traumas e bloqueios e muitas vezes a mulher limita setores importantes da vida em função das limitações do seu próprio “eu”, como por exemplo os setores profissional e amoroso.

A mulher comum, ao longo do século passado, iniciou um importante processo de auto-percepção onde viu-se reprimida no âmago da sua feminilidade, inferiorizada no seu papel social e desconhecida na sua própria sexualidade.

E iniciou um processo de liberação. A principal atitude das mulheres foi a chamada revolução sexual: as mulheres queimaram sutiãs, vestiram calças, tomaram anticoncepcional, foram trabalhar... e escravizaram a si mesmas, pelo motivo de que em nenhum momento deixaram de ser mulheres, ou seja, tentaram uma liberdade de ser fazendo tudo o que os homens faziam (sexo livre, trabalhar fora, independência), porém o interior das mulheres continuou carregando a sombra da Deusa: as mulheres desenvolveram atributos importantes, porém não curaram as feridas da alma feminina...

Como disse Clarice, a mulher prossegue sem se conhecer...pois todo aquele movimento feminista não deu às mulheres a autonomia mais necessária de todas que é a libertação das pendências e dependências emocionais que fazem com que até a mais bem sucedida das mulheres sofra por determinados “amores”. São várias as chagas da deusa ferida e cabe a cada mulher a tarefa de reconhecê-las e curá-las. As deusas são atributos femininos riquíssimos de significado, porém, muitas vezes, para que esses atributos fluam positivamente em nós torna-se necessária uma viagem interior, visitando as faces dessas deusas, reconhecendo quais foram feridas em algum momento de nossa vida, quais não foram feridas mas estão de certa forma “reverberando” alguma ferida familiar e ainda estão vivendo um padrão negativo – a sombra, à espera de resgate e salvamento.

E o que acaba acontecendo com muitas mulheres desavisadas por aí afora? Uma espécie de cura ao contrário, a mulher atrai um parceiro perfeito para toda a sua “inhaca interna”, ele ativa e alimenta suas sombras, seus medos, e suas deusas doentes são ativadas...e a mulher começa a ser magoada e sofrer e não consegue entender porque sempre isso, não reconhece que está alimentando um câncer emocional, muitas vezes perdendo a noção de limite e tentando fazer aquilo dar certo, num verdadeiro massacre interior...

Saber de suas sombras é o primeiro passo para sair do círculo vicioso...reconhecer uma Atena ferida que tem medo de lidar com seus sentimentos e sua sexualidade e que vive só o racional da vida, muitas vezes escondendo-se atrás de um papel profissional...reconhecer a chaga de uma Hera, que vive um pretenso casamento perfeito, mas delega o poder pessoal ao marido e vive a vida dele como se fosse a sua...até ser traída...e depois ainda recusa-se a perder o papel de esposa, convivendo com as traições de Zeus...reconhecer uma Deméter ferida, aquela que vive só para os filhos e que faz até do marido um filho, depois ressente-se quando estes crescem e vão embora, aquela que nutre toda a família, mas não busca sua auto-realização, sendo ela própria a maior carente da relação.


E a chaga de Afrodite então nem se fala, a mulher que por necessidade de “amor” e atenção aceita ser objeto sensual e sexual, vive muitas vezes o papel de amante, mas gostaria mesmo de ser a esposa, de ter um homem que a honrasse, e quando o tem, ainda acha que tem que garantir sua feminilidade sendo a mais bonita e mais sensual a todo momento e a qualquer preço.

A sociedade alimenta muito esse papel de Afrodite, através de ditames de beleza impostos, como a beleza padronizada por peitos e bundas esculturais (de silicone) e abdomes secos (de lipoaspiração), sem falar que agora a mulher não se dá mais o direito de envelhecer, enrugar e tornar-se uma anciã, e aí, dá-lhe reposição hormonal! Será mesmo que tudo tem que ser firme até a hora da morte? E onde fica o espaço e o direito à diversidade humana?


Enquanto a indústria da beleza forçada fatura milhões com toda essa insanidade, será que a mulher que se submete a tudo isso, está realmente ganhando o que espera? Tem amor de verdade? Tem segurança emocional? Satisfaz-se em somente aparentar o que na verdade não é? E quem não têm grana pra manter toda essa beleza plastificada? Vai viver insatisfeita, infeliz?

Olha, já vi gente fazendo empréstimo pra pagar o silicone e a lipoaspiração, mas por dentro continuam inseguras, deprimidas e ainda por cima endividadas. E continuaram compensando suas carências emocionais com comida, o que significa que em pouco tempo o resultado de suas lipoaspirações foi por água abaixo.

Mulheres...por favor, honrem-se de verdade! A primeira cirurgia deve se a plástica interior, ficar bonita por dentro, ficar poderosa por dentro, ficar firme por dentro. Realmente, prosseguir sem se conhecer exige coragem, mas decidir conhecer-se e mudar-se exige mais coragem ainda. Coragem para se reformular, recomeçar, transformar, reeditar, de dentro pra fora, o que é muito diferente se sair se “recapando” por aí.

Ainda bem que neste exato momento muitas mulheres estão tendo este yinsight, de perceber que são muito mais do que julgavam ser, que não são apenas um corpo a satisfazer padrões, ou uma profissional workaholic, ou uma esposa, ou uma mãe, ou uma amante, ou uma vítima dos acontecimentos, e que o conjunto das faces da Deusa só vai existir em equilíbrio se a cura de determinadas sombras for realizada.

A mulher que buscar o reconhecimento das suas forças interiores e a integração dos atributos das deusas provavelmente vai parar de culpar a vida ou seus amores fracassados pela sua infelicidade. Ela vai resgatar seus pedacinhos de mulher, vai aproveitar e reciclar o que deve ser valorizado e vai se dar conta do que deve amadurecer e deixar morrer...como a Grande Mãe faz na sábia natureza.


E assim pode surgir um novo modo de SER, da onde pode surgir um jeito de amar novo, descentralizado - o que não significa superficial. Mas para ter um relacionamento genuinamente novo, tem que primeiro poder: muitas mulheres nas suas condições atuais devem se questionar a respeito: “Será que sou capaz de ter uma postura diferente, um amadurecimento emocional, ou só estou carente e com medo de ficar sozinha?”

E dependendo da resposta, antes de quererem amar e serem amadas, devem buscar primeiro o setor de capacitação. Não é papo de RH, é buscar a capacitação para poder relacionar-se bem com o ser amado sem torná-lo eixo condutor da sua própria vida, coisa que muita mulher acaba fazendo sem querer, porque vive na sombra das deusas e projetando a suposta solução desse vazio interior no companheiro. Esse jeito de amar descentralizado consiste em manter o “gráfico da vida” equilibrado, dividido em fatias mais ou menos parelhas, sem separar fatias grandes demais para algo ou alguém, evitando assim a desilusão.


Quando constatamos que realmente tudo que faz parte da vida é transitório e que não podemos segurar nada nem ninguém pra sempre conosco, conseguimos perceber que a única permanência da vida somos nós mesmos. E então percebemos que este eu mesmo que nos acompanhará eternamente vive melhor se aprender a crescer, a se auto-conhecer, a curar suas feridas, a perdoar, se perdoar e libertar-se de medos e limitações antigas...


A mulher deveria pensar que, se ela está destinada a conviver consigo mesma, na alegria e na tristeza, o ideal é que ela faça isso com a maior consciência possível, o melhor é que ela esteja inteira e não esperando ser completada por uma metade que na verdade não lhe pertence. As pessoas não se pertencem, elas podem apenas se aproximar muito e interagir, ser companheiras e amarem-se, mas a individualidade do outro é um fato intransponível que deve ser aceito, como aceitamos que precisamos de ar para respirar. Amar é lindo, mas quem sabe amar de um jeito lindo? Só quem está muito consciente, muito íntegro, muito amoroso e desta forma, ama.

A cura do feminino na vivência do amor envolve uma tomada de consciência de que talvez aquilo que pensamos ser amor seja outra coisa qualquer que nos acomoda e nos conforta em nossas limitações. Envolve também a constatação de que para mudar nossa vida e o que não dá certo nela, só mudando a nós mesmas, sanando feridas, colocando um ponto final nos sofrimentos antigos e orgulhos feridos que não servem pra mais nada. Os relacionamentos amorosos vão dar um salto quântico quando a mulher e o homem amadurecerem de verdade, porque envelhecer não é sinônimo de crescer, carência não é sinônimo de amor e estar junto não é sinônimo de amar.

Ir em busca da sabedoria da Deusa é a caminhada ancestral da mulher rumo ao amor por si mesma. Há muito ainda para ser plantado no solo fértil da Deusa e somente com a própria taça transbordante a mulher poderá brindar o amor junto com o homem.

Carla Lampert - Coordenadora do Projeto Feminino Essencial, Mestra Reiki Usui Shiki Rioho, Focalizadora de Círculos Femininos, Instrutora da Dança do Sagrado Feminino e Relações Públicas - Porto Alegre - RS - BRASIL




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