21 de março de 2009





DEUS


Mesmo para os descrentes há a pergunta duvidosa: e depois da morte? Mesmo
para os descrentes há o instante de desespero: que Deus me ajude. Neste mesmo
instante estou pedindo que Deus me ajude. Estou precisando. Precisando mais do
que a força humana. E estou precisando da minha própria força. Sou forte mas
também sou destrutiva. Autodestrutiva. E quem é autodestrutivo também destrói
os outros. Estou ferindo muita gente. E Deus tem que vir a mim, já que eu não
tenho ido a Ele. Venha, Deus, venha. Mesmo que eu não mereça, venha. Ou talvez
os que menos merecem precisem mais. Só uma coisa a favor de mim eu posso dizer:
nunca feri de propósito. E também me dói quando percebo que feri. Mas tantos
defeitos tenho. Sou inquieta, ciumenta, áspera, desesperançosa. Embora amor
dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor: às vezes parecem farpas. Se
tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz, é porque preciso que
Deus venha. Venha antes que seja tarde demais.

Clarice Lispector /
Adna Aquino

Nenhum comentário: