24 de outubro de 2010

Quando tudo for pedra, atire a primeira flor;



Quando tudo parecer caminhar errado, seja você a tentar o primeiro passo certo;
Se tudo parecer escuro, se nada puder ser visto, acenda você a primeira luz,
Traga para a treva, você primeiro, a pequena lâmpada;

Quando todos estiverem chorando, tente você o primeiro sorriso;
Talvez não na forma de lábios sorridentes, mas na de um coração que
compreenda, de braços que confortem;
Se a vida inteira for um imenso não, não pare você na busca do
primeiro sim, ao qual tudo de positivo deverá seguir-se;

Quando ninguém souber coisa alguma, e você souber um pouquinho,
seja o primeiro a ensinar, começando por aprender você mesmo, corrigindo-
se a si mesmo;

Quando alguém estiver angustiado, à procura, consulte bem o que se passa,
talvez seja em busca de você mesmo que este seu irmão esteja;
Daí, portanto, você deve ser o primeiro a aparecer, o primeiro a mostrar-se,
primeiro que pode ser o único e, mais sério ainda, talvez o último;

Quando a terra estiver seca, que sua mão seja a primeira a regá-la;

Quando a flor se sufocar na urze e no espinho, que sua mão seja a
primeira a separar o joio, a arrancar a praga, a afagar a pétala, a acariciar a flor;
Se a porta estiver fechada, de você venha a primeira chave;
Se o vento sopra frio, que o calor de sua lareira seja a primeira
proteção e primeiro abrigo.
Se o pão for apenas massa e não estiver cozido, seja você o primeiro
forno para transformá-lo em alimento.

Não atire a primeira pedra em quem erra. De acusadores o mundo está
cheio; nem, por outro lado, aplauda o erro; dentro em pouco, a ovação
será ensurdecedora;
Ofereça sua mão primeiro para levantar quem caiu;

Sua atenção primeiro para aquele que foi esquecido;
Seja você o primeiro para aquele que não tem ninguém;

Quando tudo for espinho, atire a primeira flor;
Seja o primeiro a mostrar que há caminho de volta, compreendendo
que o perdão regenera, que a compreensão edifica, que o auxílio
possibilita, que o entendimento reconstrói.

Atire você, quando tudo for pedra, a primeira e decisiva flor.


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