18 de fevereiro de 2011

Duas histórias para ajudar a entender o grande agressor


Ela me olhou cheia de receios. Os olhos estavam muito inchados. A pele escurecida por hematomas era a denúncia que não carecia de palavras. A violência havia passado por ali.

A boca com um pequeno corte no canto esquerdo difi­cultava sua fala. Voz mansa, embargada por rompantes de choro doído. Choro de quem não sabe pedir ajuda.

Ela era uma mulher bem-sucedida, emancipada. Bancária, mãe de três filhos que já cursavam faculdade na capital, dividia o lar com seu marido, um empresário que não se especializou na arte de amar.

Ele entrou na sua vida quando ela ainda era uma adolescente. O casamento aconteceu dois anos depois de iniciado o namoro. Ela não teve muita escolha. Vida no interior é assim. O casamento parece ser obrigação a ser cumprida, ainda que não exista amor.

Os atos de violência começaram alguns meses depois de casados. Primeiramente os gritos que não existiram durante o namoro, depois pequenos empurrões, até chegar ao absurdo de surras que a deixavam marcada por todo o corpo.

No dia em que me pediu ajuda, ela já acumulava cinquenta e dois anos, dos quais trinta e quatro vividos ao lado do seu agressor.

Reconheceu que não sabia mais o que fazer, mas já sabia que tinha que fazer alguma coisa. As agressões não estavam apenas na sua pele. Estavam em toda a sua alma. Cicatrizes no corpo nos recordam o sofrimento do corpo, mas há outras cicatrizes mais profundas que não conseguimos enxergar com facilidade. Aquela mulher chorava por razões novas e antigas. A primeira surra, já distante no tempo, quase trinta e quatro anos, ainda doía em algum lugar da alma.

Perguntei a razão de sofrer calada até aquele dia, e ela me confessou que tinha medo de que, ao contar para alguém, pudesse perdê-lo. Os filhos não sabiam das agressões. Tudo foi muito velado ao longo da vida, e aquele último episódio veio a público porque um vizinho escutou os objetos sendo quebrados durante a agressão e entrou na casa.

Ela não conseguia olhar nos meus olhos enquanto me dizia tudo isso. Preferia fixar a atenção no movimento das mãos que segu­ravam um pequeno pedaço de barbante. Enquanto contava os fatos, aquele pequeno barbante era enrolado e desenrolado nos dedos, como se aquele movimento representasse o movimento da sua vida.

Ouvia sem saber o que dizer. Estava indignado. Indig­nação costuma cortar a fluência das palavras. Ousei perguntar se ela queria separar-se dele, e prontamente ela me disse que, se isso acontecesse, ela não saberia o que fazer da própria vida. E o barbante continuou sendo enrolado nos dedos...

Não pude fazer muita coisa. Ela não quis denunciá-lo à polícia. Embora eu soubesse que esta seria a atitude correta, tive que respeitá-la. Perguntei o que ela queria de mim. Olhando-me com serenidade, disse-me que só queria desabafar; apesar de eu ter idade para ser seu filho, ela sentira um desejo de que eu a tratasse como filha. E eu o fiz. Eu a abracei e lhe garanti que a apoiaria seja qual fosse sua decisão.

Agradeceu-me e fui embora.

Aquela senhora não sabia viver longe de seu agressor. Amor de domínio, amor estragado. O tempo prolongado no cativeiro, quase uma vida inteira, retirou-lhe a coragem de falar dela mes­ma. Aprendeu a engolir o choro, a não reclamar dos maus tratos. Subjugou seu coração ao domínio de um homem frio e insensível que se proclamou proprietário de sua história. Ela permitiu.

A surra que deformara seu rosto começou leve. Antes de ser tapa, foi grito. Permitido o grito, vieram os empurrões. Dos empurrões aos golpes violentos foi um salto pequeno. Tudo co­meça pequeno nessa vida; e só cresce se o permitirmos.

Aquela mulher autorizou o invasor. Abriu o portão para que ele viesse pisar o seu jardim. E, depois de tanto tempo, descobriu que não possuía voz nem coragem para proclamar a ordem de despejo.

Pequenas permissões abrem espaços para grandes invasões. Grandes tragédias começam com pequenos descuidos. Desastres terríveis são iniciados com displicências miúdas. São as regras da vida. Se quisermos o fruto, é preciso que haja empenho no cultivo do broto.

O agressor não foi repreendido. Ele cresceu e alcançou força porque a própria vítima o nutriu. Os inimigos só podem sobreviver à medida que injetamos sangue em suas veias.

A vida nos jardins ensina-nos uma sabedoria milenar. Plantas precisam de podas para que não ultrapassem os limites estabelecidos

Não houve poda, e por isso a árvore avançou o território que não poderia ter avançado. Arvores crescem sem disciplina. A tesoura de poda é que dará o rumo que a árvore poderá seguir. Do livro quem me roubou de mim – Pe. Fábio de Melo.




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