19 de agosto de 2012

Servindo Para Servir - Legrand



Era uma vez um maravilhoso jardim, situado bem no centro do campo. O dono costumava passear por ele ao sol do meio dia. Um esbelto bambu era, para ele, a mais bela e estimada de todas as árvores plantadas do seu jardim. Este crescia e se tornava cada vez mais lindo. Ele sabia que o seu senhor o amava e que era a sua alegria.


Um dia, o dono, pensativo, aproximou-se do seu amado bambu, e num sentimento de profunda veneração, este inclinou a cabeça imponente. O senhor disse: "meu querido bambu, eu preciso de ti". O bambu respondeu: "senhor, estou pronto. Faz de mim o que quiseres!" Enfim o seu dono precisava dele e ele ia servi-lo. Sentia-se feliz, parecia ter chegado a grande hora, para a qual se preparara a vida inteira.


Com uma voz grave o senhor disse: "bambu, só poderei usar-te, se te podar".
"Podar a mim, senhor? Por favor, não faça isso! Deixe a minha bela figura, não vês que é ela que atrai as pessoas e como todos me admiram"? "'Meu amado bambu, (a voz do homem mais grave ainda) não importa que te admirem ou não, se eu nao te podar, nao poderei usar-te .


Depois daquela conversa entre os dois, no jardim, tudo ficou silencioso, até o vento segurou sua respiração! Finalmente o lindo bambu inclinou-se e sussurrou:
"Senhor, se não podes me usar sem podar, então faz comigo o que queres"
O senhor aproveitou aquele momento de entrega e acrescentou:
"Devo cortar também as tuas folhas".
O sol escondeu-se atrás das nuvens. Umas borboletas afastaram-se assustadas. O bambu trêmulo, a meia voz, disse:
"Senhor corta-as".


"Ainda não basta, meu querido bambu, devo também cortar-te pelo meio, cortando também seu coração. Se não faço isso, não poderei usar-te".
Desesperado, o bambu questionou-se:
"Como poderei viver sem coração"?
"Devo tirar-te o coração, caso contrário, não te poderei usar!" Houve um profundo silêncio. Alguns soluços com lágrimas abafadas. Até que o bambu inclinou-se e disse:
"Senhor, poda, corta, divide, toma por inteiro, reparte".


E o senhor desfolhou, decepou, partiu e tirou-lhe o coração. Depois o levou para o meio de um campo ressequido, onde havia uma fonte de onde brotava água fresca. Deitou-o cuidadosamente no chão. Ligou uma das extremidades do tronco decepado à fonte, e a outra levou até o campo. A fonte cantou boas vindas ao bambu decepado. As águas cristalinas se precipitaram alegres pelo corpo despedaçado e correram sobre o campo ressequido que por elas tanto havia suplicado.
Ali se plantou trigo, arroz, milho, feijão.


Os dias se passaram. A sementeira brotou e cresceu. Tudo ficou verde e veio o tempo da colheita.
Assim, o tão maravilhoso bambu de outrora, em seu despojamento, em seu aniquilamento e humildade, transformou-se numa grande bênção para toda aquela região.
Quando era grande e belo, crescia somente para si e se alegrava com sua própria beleza. Foi no despojamento, aniquilamento e na entrega que se tornou o canal, pelo qual, o senhor se serviu para tornar fértil a sua terra.


Foram muitos os homens e mulheres que encontraram a vida e viveram deste tronco, de um bambu podado, cortado, decepado, partido.

"Ser útil, dar sentido à existência e contribuir para que o mundo melhore um pouco mais, implica, muitas vezes, abrir mão das vaidades e do individualismo. "

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